sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Saneamento básico para todos. Será?

Saneamento Basico Precario no BrasilMoradias ribeirinhas sem nenhum tratamento de esgoto


O Governo admitiu, com 17 anos de antecedência, que não conseguirá cumprir a meta de saneamento básico estipulada para o país. O Plano Nacional de Saneamento básico visava atender 90% do território com o tratamento e destinação adequada do esgoto até 2033. O mais impressionante dessa afirmação é a constatação de que o problema é crônico e histórico no país. Atualmente, quase metade da população (43%) vive em cidades sem rede de tratamento de esgoto.
O que levou o Governo a assumir a incapacidade de alcançar a meta estipulada quase duas décadas antes é o ritmo lento das obras e a falta de comprometimento das gestões envolvidas.
A justificativa do Secretário Nacional do Saneamento – Paulo Ferreira, é que as prefeituras dos pequenos municípios tem dificuldade de administrar o problema, seja por falta de pessoal especializado (técnicos, engenheiros e empreiteiras), ou por desinteresse por parte dos prefeitos. Outro ponto notável é a significativa desigualdade entre as regiões: enquanto na região Norte cerca de 90% dos brasileiros vivem sem o serviço de saneamento básico, no Sudeste essa parcela da população representa só 17%, menor número em todo o país.
A preocupação é proporcional ao tamanho do problema: A falta de saneamento básico e rede de esgoto deixa o país ainda mais exposto à doenças. Desde os problemas mais corriqueiros como diarreia e doenças dermatológicas, ao agravamento de epidemias que já estão preocupando as autoridades de saúde: o descaso com o tratamento da rede de esgoto aumenta as condições para a proliferação do mosquito responsável pela Dengue, Chikungunya e Zika.

Ameaça à saúde pública
A gigantesca parcela da população que não recebe este serviço básico, está perigosamente suscetível a diversas doenças causadas pelas más condições oriundas da falta de tratamento de água e esgoto. A exposição a vírus, bactérias e condições insalubres aumenta a incidência de doenças como:
Febre Tifóide
A infecção se dá pelo contato direto com o portador da doença ou através do consumo de água e alimentos contaminados pelos bacilos eliminados nas fezes e urina do doente.
A falta de higiene e condições sanitárias precárias são determinantes para proliferação da Salmonella entérica typhi, bactéria causadora da doença. A princípio apresenta sintomas brandos como febre prolongada, manchas rosadas no corpo, falta de apetite, mal‐estar e dor de cabeça, podendo apresentar distensão e dores abdominais, vômitos e diarréia com sangue. Em casos extremos, a falta do tratamento pode causar hemorragias internas e perfuração no intestino, elevando o risco de óbito.

Cólera
Causada pela bactéria vibrio colérico (Vibrio cholerae) é uma doença infectocontagiosa aguda do intestino delgado. Sua contaminação dá‐se principalmente pela ingestão de alimentos contaminados, mal cozidos ou o contato direto com as fezes de pessoas infectadas. A cólera causa intensa diarreia, vômitos, dores abdominais e eventualmente, febre. A perda excessiva de líquidos leva a desidratação severa, podendo também comprometer o estado nutricional do portador. Em casos extremos, onde ocorre o choque hipovolêmico que pode levar a falência dos órgãos e, consequentemente, a morte. A falta de higiene e saneamento é uma das principais fontes de contaminação da doença.

Leptospirose
Os principais transmissores da doença são os ratos urbanos, responsáveis por contaminar a água com a bactéria Leptospira, presente na urina desses roedores. A contaminação acontece quando o indivíduo entra em contato com a água contaminada e a bactéria entra na corrente sanguínea através de pequenos ferimentos ou mucosas. A doença causa febre alta, mal estar, mialgias (dores musculares), olhos vermelhos, tosse, manchas avermelhadas no corpo, cansaço, náuseas, diarreia e desidratação severa. A doença também pode provocar o agravamento da saúde através da meningite. Suas complicações podem levar a complicações renais, hemorragias e coma.

Disenteria bacteriana
Também conhecida como Shigeloses, dá‐se através do contato com fezes ou alimentos contaminados pela bactéria Shigella. Acomete o intestino provocando diarreia severa muitas vezes acompanhadas de sangue e muco e cólicas abdominais.

Parasitoides
A convivência em ambientes insalubres, sem o saneamento correto e acesso a água potável pode ocasionar a proliferação de parasitas humanos. O contato com água e fezes contaminadas provoca doenças proeminentes de protozoários lombrigas e vermes. Infecções como a Amebíase, Giardíase e Teníase têm em comum a presença de parasitas que adentram o organismo humano, instalam‐se no sistema digestivo e ocasionam uma série de problemas ao hospedeiro. Essas doenças normalmente acometem infecções intestinais, disenterias, esteatorreia e diversos outros sintomas extremamente incômodos ao doente. Além disso, sua incidência pode prejudicar consideravelmente o desenvolvimento do indivíduo, tanto físico quanto intelectual, por comprometer seu estado nutricional.

Agravamento de epidemias: Zika e Dengue
As enfermidades causadas pela falta de saneamento básico podem parecer um problema distante para aqueles que não convivem com essa realidade, mas as consequências da negligência em relação a politicas básicas como essa pode ter efeitos devastadores para toda a sociedade.
A proliferação de agentes causadores de epidemias como o mosquito Aedes Aegypti dá um tom ainda mais preocupante à essa questão. O saneamento básico é fundamental para que a população se sinta envolvida num conjunto de medidas para combate ao mosquito e outras doenças, porém se existe o abandono por parte dos gestores, dificilmente os moradores se sentirão comprometidos com as ações. O abandono de regiões periféricas ou até mesmo cidades inteiras favorece a cultura do acúmulo de lixo além de outras condições favoráveis a incidência de criadouros do mosquito.

O Brasil
A situação no Brasil é tão alarmante que diretora geral da Organização Mundial de Saúde (OMS), Margaret Chan, desembarcou no país no último dia 23 para discutir com as autoridades, incluindo a Presidente da República, medidas que podem ser tomadas para frear a epidemia de microcefalia relacionada ao Zika, iniciada em nosso território. Durante seu primeiro mandato na direção da OMS, Chan desenvolveu uma série de medidas de combate à desnutrição, alertando para sua relação com problemas sanitários e condições de higiene precárias em regiões como a Ásia. No relatório desenvolvido pela Organização, destacou‐se a necessidade da adoção de políticas de saneamento e acesso a água potável como forma de garantir a saúde e desenvolvimento da população.
No Brasil, os números demonstram que a população segue sofrendo devido à falta de políticas básicas de atenção à saúde. E o mais preocupante é que a faixa etária mais prejudicada é justamente a mais nova: doenças infectocontagiosas e epidemias como a Zika representam grande risco a população infantil.

Crianças são as mais prejudicadas
O efeito das doenças causadas pela exposição ao esgoto e a água contaminados prejudica sobretudo as crianças na primeira infância, período dos 0 aos 5 anos de idade, fase na qual os fatores externos são determinantes para o seu desenvolvimento físico e intelectual.
As frequentes diarreias e desidratações causadas pela ingestão de alimentos contaminados, água sem tratamento adequado ou até mesmo pequenas infecções intestinais causadas por agentes transmissores podem comprometer seriamente o estado nutricional e, consequentemente, o crescimento da criança.

Alimentação
De acordo com a nutricionista Bruna Benedetti da Nova Nutrii “Doenças intestinais recorrentes e principalmente a contaminação por parasitas pode influenciar na capacidade do organismo da criança em absorver os nutrientes da alimentação. Outras questões podem piorar o quadro, como falta de apetite e falta de acesso a alimentação adequada, resultando em crianças mal nutridas e com crescimento comprometido.”. O resultado dessa triste combinação é uma geração de crianças com saúde debilitada, de menor estatura e baixo aproveitamento escolar.
Enquanto a solução não vem em definitivo, medidas simples podem ajudar na prevenção de doenças: “Lavar muito bem os alimentos, higienizar as mãos, ferver a água e evitar contato com ambientes de risco podem ajudar a minimizar os problemas. Além disso, crianças que apresentarem sintomas como de falta de apetite, vômito e diarreia devem ser acompanhadas por um médico. A utilização de suplementos nutricionais e uma dieta balanceada podem ajudar a recuperar o estado da criança e fortalecer seu sistema imunológico” – aponta Bruna Benedetti.
Apesar dos avanços que o país tem feito nos últimos anos em relação ao combate à miséria e desnutrição, os números apontados pelo Governo quanto à meta do Saneamento Básico vão totalmente na contramão desta preocupação. A sociedade deve seguir atenta e cobrar medidas dos órgãos competentes, afinal como o próprio nome diz, é um direito básico que pode assegurar a saúde da população e vai muito além, é um indicador de qualidade de vida e de condições mínimas de dignidade.
Fonte: Jornal Dia Dia

Agricultura sustentável - Resíduos de esgoto podem ser utilizados como adubo na agricultura

residuos de esgoto utilizados como adubo na agricultura


O esgoto doméstico pode se tornar um aliado da agricultura. Pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) estão desenvolvendo um adubo, feito com lodo produzido em estações de tratamento de esgoto, que se mostrou mais eficiente que os fertilizantes comerciais.

Fruto de parceria da UFF com a prefeitura de Volta Redonda (RJ) e o Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae) da cidade, os experimentos vêm sendo conduzidos em uma estação de tratamento do município desde 2011.

Segundo a pesquisadora Fabiana Soares dos Santos, que coordena a equipe de cinco professores da UFF e alunos de iniciação científica, o uso agrícola do lodo é uma boa ideia porque "alia o baixo custo com o impacto ambiental extremamente positivo".

O lodo de esgoto doméstico é o resíduo gerado no tratamento do esgoto sanitário e pode causar sérios problemas ambientais se disposto de forma inadequada. Em vez de ser descartado nos aterros, ele vira matéria-prima para a produção do fertilizante, por ser fonte de matéria orgânica e nutrientes para as plantas.

Mas esse lodo pode conter certas substâncias que, em determinadas concentrações, são nocivas ao meio ambiente e à saúde. Por isso, o Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) publicou em 2006 a Resolução n.º 375, que define quais são os níveis máximos de poluentes que o lodo de esgoto pode ter para ser usado na agricultura.

O fertilizante feito pela equipe da UFF foi criado com base uma mistura desse lodo com resíduos das podas de árvores feitas pela prefeitura. Durante quatro meses, os pesquisadores fizeram a compostagem desses materiais e analisaram se os agentes contaminantes orgânicos, inorgânicos (metais pesados) e biológicos (coliformes, ovos de helmintos, salmonela) estavam adequados aos níveis da resolução.

Concluída essa etapa, iniciaram os experimentos com o cultivo de milho e de aroeira, uma espécie arbórea utilizada em projetos de reflorestamento. Nessa fase, os pesquisadores cultivaram as duas plantas em cinco diferentes tipos de solo: um adubado com o fertilizante desenvolvido por eles, um com o substrato comercial, e os outros três utilizando combinações desses dois adubos em diferentes proporções.

Resultados. A equipe de Fabiana constatou que as plantas se desenvolveram melhor nos tratamentos que continham as proporções mais concentradas do composto de lodo de esgoto. "No caso do milho, a diferença foi bem marcante entre o tratamento com o substrato comercial puro quando comparado com o lodo de esgoto. O lodo teve um efeito significativo no desenvolvimento das plantas."

Agora, eles se debruçam sobre os dados coletados e analisam, em laboratório, os pigmentos e a concentração dos nutrientes nas folhas para comprovar fisiologicamente a diferença que já pode ser constatada só de olhar.

Fonte: Estadão